Teologia · Traduções

Em direção a uma Teologia da Divina Providência não-determinista

 

“Deus se move de formas misteriosas
Para realizar suas maravilhas
Ele imprime suas pegadas no mar,
E cavalga sobre a tempestade.
——-
Não julgue o Senhor com débil entendimento,
Mas confie nele para sua graça.
Por trás de uma providência carrancuda,
Ele oculta uma face sorridente.”

Em sua história dos Batistas Livres do Norte, I.D. Stewart escreve sobre o fundador da denominação:

“O cavalo de [Benjamin] Randall tropeçou e o derrubou no chão. Ele reconheceu a mão da Providência que o salvou de ter alguma lesão, entretanto a perda de seu cavalo, devido a uma fratura no ombro, foi uma perda e tanto, já que ele estava incapacitado de trabalhar e, sem um cavalo, Randall não poderia mais viajar e soprar a trombeta do Evangelho” [1]

Similarmente, quando minha esposa faleceu, há pouco tempo, todas as minhas cinco filhas estavam, sem razão aparente, na cidade (onde duas delas não moravam) e no quarto conosco.  Eu falei, mais de uma vez durante os dias que se sucederam, que o fato de todas estarem lá era providencial. Eu tenho certeza que sim.
Randall e eu poderíamos ter acrescentado, obviamente, que foi tão providencial ele ter perdido seu cavalo, que ele tanto dependia, e eu ter perdido a minha esposa de quase 59 anos. Mas nós não costumamos atribuir coisas negativas à providência. E é aí que reside a necessidade de um estudo mais aprofundado a um assunto que não recebe a atenção que merece.

Como Abert C. Outler – que não muito amigável à teologia biblicista – observou: “A crença na providência divina como meio definitivo da existência humana” é “a pedra angular da doutrina cristã tradicional. ” [2]

A providência, ele escreve, é: A presença “ativa” de Deus neste mundo – pessoal e gracioso – na continuidade da criação, nas vicissitudes da história, como o amor divino em que vivemos, nos movemos e temos o nosso ser.” [3]

INTRODUÇÃO: A DOUTRINA TRADICIONAL

Dirijo-me primeiro a Louis Berkhof, como muitas vezes tenho feito, desde aqueles meus antigos dias, quando eu encontrei pela primeira vez na em minha pós-graduação acadêmica.

Seu trabalho era substancial e ele dedicou um capítulo à providência, apropriadamente, como parte de sua abordagem da doutrina de Deus. Ele observou que “a palavra “providência” veio a significar a provisão que Deus faz para os fins do Seu governo, bem como a preservação e governo de todas as suas criaturas [4]

Isso é bastante amplo, como mostra a Bíblia:
“Eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim, que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam, dizendo: O meu conselho subsistirá, e farei toda a minha vontade” (Isaías 45: 9-10)

Entre outras coisas, Berkhof define a visão cristã da providência ao contrastar fatalismo e oportunidade, bem como à vista da ciência secular: “que o mundo é dominado e dirigido por um férreo sistema de leis”. [5] Para o cristão, Deus está trabalhando em tudo o que acontece, orientando tudo para seus fins desejados.

Berkhof também faz a distinção tradicional entre providência geral e especial. A primeira indicando o governo de Deus sobre o universo todo, e a última, Seu cuidado de cada parte dele em relação ao todo. Contudo, ele é rápido em observar que estes não são realmente “duas espécies de providência, mas a mesma providência exercida em duas diferentes relações.” Ele acrescenta que a providência especial, por vezes, “se refere ao cuidado especial de Deus por Suas criaturas racionais.” e que alguns teólogos definem uma providência muito especial (providentia especialissima)”, com referência aos que estão na relação especial de filiação a Deus. [6]

G.C. Berkouwer acrescenta uma útil observação que nesta providência muito especial “o amor de Deus se revela particularmente.” [7]

Finalmente, Berkhof analisa a doutrina da providência para incluir três partes principais[8]
(1) Preservação é a doutrina sobre a qual Deus mantém a existência, a natureza e as forças de todas as coisas que Ele criou.

(2) Concorrência é a doutrina que determina que Ele trabalha em todos os atos de suas criaturas, então nada nunca ocorre “independentemente” de Deus.

(3) Governo é a doutrina de que Ele trabalha em tudo para cumprir Seus propósitos.

Berkouwer, citando o Catecismo de Heidelberg, comenta que a terceira doutrina (o governo) fala principalmente sobre “o propósito ou fim para o qual Deus conduz todas as coisas”, enquanto a primeira (preservação) também pode ser definida por palavras como defesa, sustento, ou manutenção. [9]

Ele acrescenta que sustento inclui:  “todo o processo no qual todas as coisas movem-se em direção ao fim determinado por Deus”, o qual o leva a observar que esses dois aspectos das providência não podem finalmente ser “vistos como duas obras distintas”.[10]

Em princípio, essas três doutrinas parecem uma divisão adequada do material e pertencem a uma discussão mais ampla da providência.
A abordagem de Berkhof, como já resumi, é suficiente como uma introdução ao assunto.

Meu propósito aqui não inclui a discussão de todas as questões tradicionalmente envolvidas. Há muitas delas, incluindo o modo como o governo soberano de Deus no mundo relaciona-se com a liberdade humana, como pré-conhecimento de Deus está envolvido na providência, como a presença do mal no mundo pode ser justificada à luz da bondade de um Deus soberano e todo-poderoso (teodiceia), a relação entre milagres e processos naturais, e assim por diante.

Sobre alguns assuntos, portanto, irei abordar apenas de passagem. Aqueles que mais me interessam, eu darei maior atenção. Será óbvio a qualquer leitor atento, por exemplo, que alguns dos tópicos serão os que Calvinistas (como Berkhof) e Arminianos historicamente discordam. De fato, algumas discussões sobre a providência soam muito parecidos com os tradicionais debates sobre soberania e livre arbítrio.

Eu não vejo nenhuma necessidade de passar por este trabalho novamente, acerca as questões que já tratei anteriormente [11], ainda que eu venha a dar alguma atenção na discussão de como a providência de Deus envolve o pecado humano e refere-se à presciência.

O SIGNIFICADO DE PROVIDÊNCIA

Eu inicio com o significado da própria palavra que – tal como ‘Trindade’ – não aparece nas Escrituras, mas certamente tem fundamento bíblico [12]. Providência é o ato de prover. Como Paul Helm expressa, “‘A providência divina’ é um modo formal de se referir ao fato que Deus provê. E o que poderia ser mais prático, relevante e realista que isso?”[13]  James Spiegel começa a discussão sobre providência explanando que “Em linhas gerais, a doutrina da providência divina afirma que Deus ‘provê’ para suas criaturas. O SENHOR não somente criou todo o universo – Ele também o administra prudentemente.” [14] Thomas P. Flint afirma que “Enxergar Deus como um provedor é enxergá-lo como direcionando consciente e amorosamente cada evento que envolve cada criatura em direção aos fins que Ele ordenou para elas.” [15]

Etimologicamente, do Latim, a palavra tem duas partes. A vidência, refere-se a ver e o pro significa interesse ou anteriormente. A palavra significa a mesma coisa que queremos dizer quando falamos de previsão, pelo menos quando nós a usamos não apenas no sentido de olhar à frente, mas olhar para o futuro, de tal forma a planejar de forma prudente e prever o que vemos chegando. Mas a etimologia não determina o significado de uma palavra, e Providência (como todas as outras palavras) significa exatamente o que é usado para dizer: isto é, o cuidado ativo de Deus para sua ordem criada (incluindo seres humanos), de modo a sustentar, prever, supervisionar, controlar, e guiá-los em direção aos fins que Ele tenha designado para eles.
Pascal P. Belew define providência como: “Essa atividade do Deus Trino pelo qual Ele conserva, cuida e governa o mundo que Ele fez” [16] Nesta definição, “o mundo” inclui tudo o que existe no reino natural.

Nesse sentido inclusivo, a palavra Providência (com letra maiúscula) é frequentemente utilizada como uma forma relevante de identificar o próprio Deus, da mesma forma que outras palavras tão intimamente ligadas à natureza e obras de Deus podem se tornar nomes para Ele.
Por exemplo, às vezes dizemos, “Os Céus sabem” (NT: Heaven knows. Em Português costumamos dizer: “Só Deus sabe”) quando queremos dizer que Deus sabe. Fazemos isso em um nível humano, também, quando nos dirigimos a um juiz como “meretíssimo” (NT: Your Honor) ou se referir a um rei como “sua majestade.” A Bíblia também usa esses nomes indiretos, [17] como quando Hebreus 1:3 diz que Jesus “sentou-se à direita da Majestade nas alturas” (também Hebreus 8:1). Da mesma forma, as pessoas às vezes usam Providência quando querem falar do próprio Deus. A razão para isso é que somente Deus é capaz de exercer uma providência englobando todo o mundo.

A EXTENSÃO DA PROVIDÊNCIA

Em última análise, a providência de Deus abrange tudo o que transparece. Lutero disse:
“Todas as coisas são feitas e guiadas, não desprositadamente, mas pela providência divina.” [18]
Berkouwer define providência como “Governo de Deus sobre todas as coisas”, como “Deus envolvendo em Seu governo presciente tudo
que ocorre no universo. “[19] Ele também observa: “Todas as aparentes surpresas e acidentes [em nossas
vidas] são abrangidas pelo amplo círculo de ordem providencial de Deus.” [20]
Isso é mais difícil para entendermos sem confusão, e esta é uma questão que eu gostaria de discutir mais detalhadamente, porque ela envolve especialmente uma das questões críticas.

O livro da providência é, de fato, a história de tudo o que acontece no cosmos. Como Rom 8:28 diz, “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, para aqueles que são chamados segundo o seu propósito.” Todas as coisas? Sim, e o controle providencial de Deus é exercido para a realização de Seu propósito para aqueles que o conhecem. “Aqueles que amam a Deus” e “daqueles que são chamados segundo o seu propósito”, são referências para seus filhos. Então, tudo em última análise, se encaixa no conceito, a ser discutido mais adiante, da providência de Deus exercida para cuidar de seu povo; alguns têm-na chamado de “providência muito especial”.

Não temos problema algum em ver que isto ocorre para todas as coisas que reconhecemos como boas, mas isso inclui todas as coisas ruins também, como o 11 de Setembro, ou o Holocausto ou a morte da minha esposa. Deus está providencialmente no controle até mesmo sobre a maldade dos seres humanos! “A atividade do homem cai, como o menor dos dois círculos concêntricos, completamente dentro do círculo maior do propósito de Deus.” [21] Como William Plumer disse: “Sem ele, átomos e planetas, anjos e diabos, santos e pecadores não podem fazer nada.” [22]

Esta é a área de maior confusão, e desta forma, algum esclarecimento precisa ser oferecido. Para começar, o controle não significa que Deus realiza ativamente ou deseja, ou faz com que tudo seja feito. Para ver que o controle é totalmente inclusivo, a pessoa precisa apenas considerar o que significa dizer que Deus não está no controle, o que é biblicamente inaceitável. Certamente nada se passa neste mundo que está fora do controle de Deus. Ele não perdeu o controle, e nenhuma outra força no mundo pode tomar o controle dele ou, de outra forma, derrotá-lo. Os propósitos que Ele tem ordenado serão alcançados.
Além disso, Seus propósitos incluem a existência do mal no mundo, quer entendamos isso, ou não. Eu não acho que entendo do assunto, mais do que um lampejo ocasional que tenho dificuldade em colocar em palavras; e escrever uma teodiceia (a justificação da bondade de Deus, em face do mal e sofrimento) não está dentro do meu presente propósito.

Quando uma de Suas criaturas morais faz algo de errado, Deus não causa ou deseja ativamente aquela transgressão: isso é claro. Nada do que Deus obriga a pessoa a pecar. Aqui é onde o calvinista é suscetível a ser descuidado na definição de concordância, tal como quando Berkhof escreve sobre o assunto: “Em todos os casos, o impulso de ação e movimento procede de Deus”; e, “Cada ato é em sua totalidade, tanto um ato de Deus e uma ação da criatura”; e “A concorrência divina … determina-o [o pecador] eficazmente no ato específico.” [23] Para ser justo, ele também diz que: “O ato é do homem sozinho, embora sua ocorrência é eficazmente protegida por Deus. E o pecado é únicamente do homem.” [24] Mas as outras declarações tornam esta última sentença inconsistente.

Concorrência pode ter um significado menor, mas não é uma boa palavra para usar dessa maneira, e inevitavelmente significará que Deus e o homem realizam a mesma ação – como, de fato, as próprias palavras de Berkhof parecem afirmar. Essas palavras, nos ouvidos de muitos de nós, soam como Deus efetivamente interferindo nas coisas para que o pecado seja necessário. E se este fosse o caso, então Deus é, de certa forma, a causa do pecado. Daí a se pensar que Deus concorda ativamente na ação do pecado, isso simplesmente não se encaixaria no ensino bíblico.

A saída desse dilema é entender, primeiramente, que a prática do pecado é sempre uma questão de motivo e vontade. Não é pecado, por exemplo, mergulhar uma faca no peito de outra pessoa; Os cirurgiões fazem isso o tempo todo. [25]

O que é pecado é que uma pessoa pretenda prejudicar outra por tal ato. O pecado reside na vontade intencional do pecador. Sim, Deus em Sua providência sustenta a estrutura molecular da bala do assassino quando sai da arma e abate a vítima. Contudo, Deus não defende a intenção pecaminosa do assassino. Deus não concorda com nenhum pecador em seu pecado. (Algumas coisas são melhores para dizer do que outras, e é melhor dizer isso do que dizer que todas as ações são inteiramente pré-escritas, tanto as de Deus como as da criatura, como acima.) A intenção de pecar é um “evento” no mundo em que a providência de Deus, embora no controle, não é concorrente. [26] Alvin Plantinga – longe de ser arminiano – sugere apropriadamente que a doutrina de concordância, pelo menos como tradicionalmente entendida, “é o excesso de metafísica – pouco mais, realmente, do que uma tentativa de pagar a Deus elogios metafísicos desnecessários (e indesejados). ” [27]

Isso nos leva à segunda chave para entendermos o dilema: a saber, que Deus não é o único ator do universo. Alguns calvinistas reconheceram isso. Charles Hodge, por exemplo, rejeitou a doutrina de concordância neste mesmo argumento, dizendo que “é fundado em uma suposição arbitrária e falsa. Nega que qualquer criatura possa originar ação”. Ele continua a caracterizar a concorrência como uma inferência desnecessária “para garantir o controle absoluto de Deus sobre os seres criados. … O fato de que somos agentes livres significa que temos o poder de agir livremente.” [28] Deus criou intencionalmente seres humanos à sua semelhança, com vontade própria, livre (dentro das limitações, é claro) para agir de acordo com os seus próprios motivos e decisões.

A possibilidade do pecado está inteiramente dentro desse domínio e em nenhum outro lugar. Não há pecado algum nas demais ordens criadas, nem mesmo no leão brutal que dilacera e devora a gazela indefesa. Como eu disse, então, essa liberdade de exercer a vontade e o pecado é uma área de atividade no cosmos, onde a providência de Deus não é concorrente com o pecado envolvido no que acontece. Quando os humanos determinam o pecado, Deus não peca com eles; Ele não os sustenta em suas intenções e, tampouco, nos pecados que estão nessas intenções.

Com certeza, uma pessoa não pode realizar intenções pecaminosas sem Ele. Não se pode pecar independentemente de Deus. Como Thomas Oden disse: “Não se pode pecar sem providência”. [29] Se não fosse o suporte providencial de Deus em seu corpo físico, a pessoa não conseguiria puxar o gatilho para matar, não poderia pronunciar blasfêmia ou mentira, não poderia consumir a arte não-artística do pornógrafo. Mas o pecado não está nas propriedades físicas de tais atos, que as leis naturais de Deus sustentam – por razões e maneiras que Ele entende inteiramente. O pecado está nas intenções perversas dos agentes morais que fazem tais coisas, e o Deus que providencialmente sustenta sua existência e energias não sustenta essas intenções. Essa é uma das razões pelas quais insistimos tão fortemente na liberdade da vontade, porque é na vontade que o pecado ocorre. Deus permite que nossas escolhas sejam boas ou ruins; Ele não faz as escolhas conosco.

Berkouwer, que possui uma perspectiva reformada, assume seriamente a responsabilidade humana. Ele escreve:

Qualquer pessoa que não leva a soberania divina e a responsabilidade humana a sério, nunca poderá entender com precisão a história. Ele sempre assumirá erradamente uma ou outra das duas perspectivas: ou ele fará do homem o senhor da história, criador de eventos, segurando a história em sua mão… ou ele fará da história um jogo divino no qual os seres humanos são empurrados como em um jogo de xadrez, sem responsabilidade alguma. [30]

O fato de Deus permitir a nossa desobediência significa que Deus criou o mal? Bem, o que isso significa é que Deus, quando criou seres morais com vontades próprias, criou-os capazes de pecar – e, sim, sabendo que eles o fariam. Foi assim que o pecado passou a ser parte da experiência humana, começando por Adão e Eva. Deixemos a explicação disso com Deus, confiantes de que Ele pode [nos explicar] e que Ele teve uma razão boa e suficiente para fazê-lo, motivo pelo qual Ele não se dignou revelar-nos. [31] Como o salmista, não nos preocupemos com “coisas muito profundas” para nós (Salmo 131: 1).

Há também um terceiro aspecto para entendermos este dilema: a saber, o ensino de 1 Coríntios 10:13: “Não sobreveio a vocês tentação que não fosse comum aos homens. E Deus é fiel; ele não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar. Mas, quando forem tentados, ele lhes providenciará um escape, para que o possam suportar.” A providência de Deus não inclui apenas as circunstâncias de nossa tentação, mas também inclui a maneira de evitar o pecado em cada conjunto de circunstâncias.

De fato, essa verdade apenas “funciona” no contexto da livre agência moral. Deus nunca permite que Seus filhos estejam em circunstâncias que tornem o pecado necessário. Em cada conjunto de circunstâncias, existe uma maneira de evitar o pecado. Consequentemente, cada instância de pecado na vida de um crente envolve livremente escolher contra o caminho da “fuga” que Deus providenciou – quando o crente poderia ter escolhido o caminho que Deus providenciou e evitaria o pecado. Certamente Deus não forneceu ao mesmo tempo o caminho para escapar e a necessidade de escolher contra a fuga. [32]

Eu noto, com apreciação, que Spiegel distingue duas visões da providência: uma alta e outra baixa. Na visão alta, “o controle de Deus sobre o cosmos é absoluto” e na baixa  que Deus não predestina tudo, e tampouco sabe de tudo e, portanto, muitas vezes é surpreendido em um desenrolar de acontecimentos e pode até estar enganado em suas avaliações sobre o que as pessoas irão fazer! [33] Ele observa que Armínio e Wesley (diferentemente de si mesmo e de outros calvinistas) fazem a preconcepção exaustiva de Deus logicamente antes de sua predição das coisas para preservar a liberdade humana libertária, mas ele reconhece que essa abordagem também mantém a visão elevada da providência. [34]

Agora deixo essa excursão nas diferenças entre o Calvinismo e o Arminianismo Reformado, convencido de que o relato que brevemente sugeri é superior ao modo tradicionalmente reformado de expressar assuntos de concordância com os pecados dos seres humanos. Mesmo assim, não devemos perder de vista o ponto principal: a saber, que a providência de Deus inclui tudo o que acontece, inclusive o mal. Reconhecemos a mão da providência em todos os eventos que nos moldam e ao nosso mundo.

ASPECTOS DA PROVIDÊNCIA

Existe mais de um tipo de providência? Provavelmente não, mas talvez isso não seja importante. Na providência inclusiva de Deus, existem diferentes tipos de trabalho. Como já foi observado, é tradicional distinguir entre providências gerais e providências especiais. Tal distinção parece ser necessária, pelo menos para organizar a discussão. Prefiro tratar certos aspectos da providência.

Providência na lei natural

Berkhof teve razão em indicar, como já referido, que, na visão cristã das coisas, a lei natural não é soberana. A própria lei natural é uma expressão da vontade de Deus e, como tal, é um aspecto importante de seu cuidado providencial para a ordem criada. Na verdade, isso é importante o suficiente para garantir uma discussão prolongada.

O universo material (cosmos) é construído para operar pela lei natural e funcionar deste modo. Existem muitas leis que compõem a lei natural, e todas são ordenadas por Deus como parte de Sua atividade criadora e sustentadora. A chamada lei da gravidade é um exemplo bem conhecido. “O que sobe deve descer”, dizem eles. Ou, se você combina duas moléculas de hidrogênio com uma molécula de oxigênio, você consegue água. Nossos oito planetas (foi mal, Plutão!) orbitam o sol de acordo com leis definidas, como a força centrífuga, impedindo-os de mergulhar no sol e virar torrada. Na verdade, tudo no mundo físico funciona de acordo com a lei natural. Deus estabeleceu essas leis como parte da natureza do cosmos que Ele criou. Ele os configurou para funcionar de um modo e eles funcionam uniformemente dessa maneira. Como observa Spiegel, “a Providência nos assegura de que existem de fato ‘leis’ da natureza; então nossa crença de que a natureza é uniforme não é mero instinto ou costume, mas é justificado e, portanto, racional”. [35]

Antigamente, o Deísmo era uma visão de mundo popular, insistindo (com alguma simplificação excessiva) que, uma vez que Deus estabeleceu o cosmos de acordo com a lei natural, ele não teve mais nada a ver com isso. A doutrina cristã da providência é contra essa visão, insistindo que Deus continue ativamente a sustentar as leis naturais pelas quais o universo opera e, de fato, exerce seu cuidado providencial para a ordem criada dessa mesma forma. Além disso, Deus continua a ser ativo dentro do cosmos de maneiras que transcendem a lei natural.

Isso mostra uma importante faceta da discussão. Não se viola a lei da gravidade, por exemplo, saltando de um edifício e esperando flutuar suavemente no chão. Saltar do Empire State Building, na providência de Deus, resultará em morte. Sem exceções. Não estou dizendo, é claro, que Deus não é capaz de fazer um homem flutuar, só que, a menos que Ele atue de maneira diferente da Sua maneira usual de agir (lei natural), o pretenso suicida estará condenado. O ponto é: é claro, que Deus geralmente não suspende a lei natural. Como Gênesis 8:22 promete, “Enquanto a terra durar, sementeira e sega, e frio e calor, e verão e inverno, e dia e noite, não cessarão”.

Certamente Deus pode fazer milagres, e provavelmente devemos incluir a suspensão da lei natural como parte de nossa definição de milagre – pelo menos na medida em que entendemos a lei natural e o que significa “suspendê-la”. Berkouwer cita Abraham Kuyper para dizer que no fim das contas, um milagre “não é nada mais do que Deus, em determinado momento, querendo que uma certa coisa aconteça de maneira diferente daquilo que tinha sido até aquele momento em que Ele desejou que ocorresse”.[36] Paul Helm diz que um milagre é “simplesmente a maneira como Deus escolheu sustentar o Universo naquele momento”, “dando a alguns de seus aspectos”, portanto, “as características de algo que (pela experiência humana) não teria precedentes”.[37] CS Lewis distingue adequadamente milagres e eventos naturais ao dizer que os primeiros são eventos que não estão “interligados com a história da Natureza na direção de trás” – isto é, eles não fazem parte da relação causa-efeito – ao contrário dos eventos naturais.[38]

Quando Jesus andou na água, Ele o fez milagrosamente. Exceto por Pedro, até onde sabemos, ninguém mais o fez, e até mesmo Pedro logo afundou (Mt 14:25-33). Quando Jesus levantou Lázaro dentre os mortos, trabalhou de maneira diferente da observada na lei natural (João 11:41-44). Mas esse evento foi realizado apenas algumas vezes na história da humanidade, e até Lázaro teve que morrer novamente.

Com que frequência Deus, em Seu cuidado providencial para com as pessoas, opera de maneiras que não estão de acordo com a lei natural? Não sei. Ninguém sabe. Suspeito que não é tão frequente quanto alguns pensam. Eu mencionei anteriormente a morte de minha esposa. Ela morreu como resultado de uma série de coisas. Ela nasceu com uma válvula mitral que não funcionou corretamente, e os médicos perceberam cedo que ela teve um sopro cardíaco – e não precisamos nos preocupar, disseram eles. Anos depois, ela teve câncer de mama e teve tratamentos com cobalto (uma forma anterior de terapia de radiação), que foram bem-sucedidas, mas também afetaram negativamente o tecido do coração, de modo que, mais tarde, ela não era mais candidata a cirurgia. Ao envelhecer, o defeito da válvula mitral piorou. Então, sua válvula aórtica endureceu e funcionou mal. Finalmente, com todas as circunstâncias, era muito tarde para fazer qualquer coisa. Tudo isso, lembre-se, era a evidência da lei natural ocorrendo, e a lei natural é a obra ativa de Deus em sua providência.

A lei natural parece inexorável. Se você está exposto ao vírus que causa um resfriado, e seu organismo está disposto (ou mau disposto), então você ficará gripado. Sob outras circunstâncias “certas”, você obtém câncer de próstata. Se o seu colesterol ruim obstrui suas artérias, e seu coração não recebe oxigênio suficiente, então você terá um ataque cardíaco. E assim por diante. Em todas essas coisas, e em tudo o que é físico, a lei natural é ativa – na providência de Deus.

Deus quis que o universo funcionasse de acordo com a lei natural, e ele sustenta as leis que Ele próprio instituiu. Com certeza, a lei natural não é soberana; só Deus é. Mas Ele usa a lei natural no exercício de sua soberania, e Ele a usa fielmente. Como o resto de Sua criação, a lei natural é boa – exceto que algumas das consequências da queda afetaram a natureza negativamente, e por isso temos espinhos, doenças e morte.

Positiva ou negativa, a lei natural é a forma mais básica que Deus usa para governar o mundo em seu cuidado providencial para conosco. A regularidade da lei natural é, em última instância, boa para nós. Mesmo a doença e a morte servem para nos lembrar a seriedade do pecado e nos chamam para nos afastarmos de nossa iniquidade, escapar da morte infinitamente pior no inferno e experimentar o que Milton chamou de “Paraíso Recuperado”. Deus sabe o que Ele está fazendo no mundo pela lei natural, e o que Ele está fazendo é providência.

Providência no cuidado da ordem criada

Este é outro aspecto da lei natural, mas precisa ser mencionado por si só, uma vez que a ordem natural não é independente de Deus, mas é um ambiente no qual Ele está sempre trabalhando. E ele estea trabalhando não apenas para manter a ordem, mas para fornecer o mundo que Ele criou, providenciar o bem-estar de todas as Suas criaturas, seja vegetal, animal ou humano.

A Bíblia tem todo tipo de coisas a dizer sobre isso, e o Salmo 104 é especialmente poderoso:

Tu, que fazes sair as fontes nos vales, as quais correm entre os montes.
Dão de beber a todo o animal do campo; os jumentos monteses matam a sua sede.
Junto delas as aves do céu terão a sua habitação, cantando entre os ramos.
Ele rega os montes desde as suas câmaras; a terra farta-se do fruto das suas obras.
Faz crescer a erva para o gado, e a verdura para o serviço do homem, para fazer sair da terra o pão,
E o vinho que alegra o coração do homem, e o azeite que faz reluzir o seu rosto, e o pão que fortalece o coração do homem.
As árvores do Senhor fartam-se de seiva, os cedros do Líbano que ele plantou,
Onde as aves se aninham; quanto à cegonha, a sua casa é nas faias.
Os altos montes são para as cabras monteses, e os rochedos são refúgio para os coelhos.
Designou a lua para as estações; o sol conhece o seu ocaso.
Ordenas a escuridão, e faz-se noite, na qual saem todos os animais da selva.
Os leõezinhos bramam pela presa, e de Deus buscam o seu sustento.
Nasce o sol e logo se acolhem, e se deitam nos seus covis.
Então sai o homem à sua obra e ao seu trabalho, até à tarde.
Ó Senhor, quão variadas são as tuas obras! Todas as coisas fizeste com sabedoria; cheia está a terra das tuas riquezas.
Assim é este mar grande e muito espaçoso, onde há seres sem número, animais pequenos e grandes.
Ali andam os navios; e o leviatã que formaste para nele folgar.
Todos esperam de ti, que lhes dês o seu sustento em tempo oportuno.
Dando-lho tu, eles o recolhem; abres a tua mão, e se enchem de bens.
Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras o fôlego, morrem, e voltam para o seu pó.
Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra.
A glória do Senhor durará para sempre; o Senhor se alegrará nas suas obras.

Tudo isso é Providência, pura, simples e boa.
Entre muitos outros, também observa o Salmo 29, que revela que a voz do Senhor é ouvida em todos os aspectos da ordem natural. Os versículos 7-9 relatam: “
A voz do Senhor separa as labaredas do fogo. A voz do Senhor faz tremer o deserto; o Senhor faz tremer o deserto de Cades. A voz do Senhor faz parir as cervas, e descobre as brenhas; e no seu templo cada um fala da sua glória.” Como observa Berkouwer sobre esta passagem, “Esta é a compreensão de Israel dos acontecimentos naturais. Pois os olhos de Israel estão voltados para Ele”.

As palavras de Jesus são mais simples, mas não menos poderosas: “Ele faz subir o seu sol sobre o mal e sobre o bem, e envia chuva ao justo e ao injusto” (Mateus 5:45) – uma provisão que inclui, pelo caminho, secas e inundações.
Considere Mateus 10:29-31: “
Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? e nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai. E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos.” A providência de Deus se estende para as pequenas aves e os cabelos da cabeça, e assim, todos os eventos perdem seu “poder de amedrontar o coração do crente”. [40] William Gurnall disse, comentando sobre isso: “Todo evento é o produto da providência de Deus; não um pardal, muito menos um santo, cai no chão pela pobreza, doença, perseguição, etc., mas a mão de Deus está nele “. [41]

De forma similar, Mateus 6:26 afirma que: “Eis as aves do céu; porque não semeiam, nem colhem, nem se juntam em celeiros; Contudo, seu Pai celestial as alimenta. Vocês não são muito melhores do que elas?” Em relação a esta verdade, o antigo João de Damasco disse: “A Providência, então, é o cuidado que Deus assume as coisas existentes”. [42]

Paulo, em Atos 14:17, diz que Deus “não se deixou sem testemunho, na medida em que fez o bem, nos deu chuva do céu e estações fecundas, preenchendo corações com comida e alegria”. Tal é a providência de Deus em cuidando da ordem criada, efetuada pela lei natural. E é claro que, neste sentido, pelo menos, a providência de Deus aplica-se tanto aos que o temem quanto a quem não o faz: “Ele faz subir o seu sol sobre o mal e o bem, e envia chuva ao
justo e ao injusto” (Mateus 5:45).

Providência no sustento do povo de Deus

Gurnall estava certo em dizer: “A Providência Divina é um grande e grosso volume, escrito e fechado com misericórdias de capa a capa na nossa vida.”[43] Talvez este aspecto da providência venha na categoria do que Berkhof e outros chamam de providência muito especial. Estou mais inclinado a referir-me como providência circunstancial e a categorizar toda providência manifestada quer na lei natural, como acima, ou na gestão das circunstâncias daqueles que O tem como seu Pai.

Helm observa que “é altamente provável que o cristão comum tenda a pensar o que a Providência Divina tem que fazer, não com todos os detalhes, mas principalmente com ocorrências especiais e “providenciais “.[44]
Ele provavelmente está certo nisso e definitivamente está certo em insistir que tal disposição especial é apenas parte da providência abrangente de Deus. Ele observa, de forma adequada, que “é um erro pensar que” geral “e” especial “são dois rótulos para duas caixas separadas”; e que é mais preciso pensar “de uma providencial ordem de incrível complexidade dentro da qual Deus está trabalhando para diferentes fins para as diferentes pessoas dentro dela”[45]

Não sinto necessidade alguma, por sinal, de discutir se Deus exerce esse cuidado especial ou circunstancial para aqueles que não são seus filhos. Suponho que Ele faz. Mas os personagens da Bíblia, em cuja vida vemos a manifestação mais clara desse tipo de providência, são o Seu povo. Na verdade, nós somos os que provavelmente reconhecerão Sua provisão nas circunstâncias de nossas vidas. E a afirmação bíblica de que os anjos são “espíritos ministradores, enviados para ministrar aos que serão herdeiros da salvação” (Hb 1:14) permite a ideia de que Deus exerce especial atenção para Seus filhos. Até Rm 8:28, mencionado acima, faz com que aqueles que amam a Deus, que são chamados de acordo com o Seu propósito, o alvo de Seu trabalho para que tudo ocorra o bem. Esse tipo de providência, por sinal, normalmente exige nenhuma suspensão ou exceção à lei natural. Isso envolve Deus organizando as circunstâncias de tal forma que Seu povo deve reconhecer Seu cuidado e provisão para eles nessas circunstâncias.

Isso é realmente um tipo diferente de providência? Provavelmente não, se entendemos exatamente como Deus exerce Seu providencial controle sobre todas as coisas. Do nosso ponto de vista, esse tipo de provisão é diferente da regularidade da lei natural. Por um lado, mesmo que não exija nenhuma exceção à lei natural, como observado, tampouco é alcançado por lei natural. Em circunstâncias providenciais desse tipo, muitas vezes não há como explicar o que “aconteceu” exceto como algo que Deus organizou à Sua maneira. Aqui é onde a presença de minhas cinco filhas no momento da morte da minha esposa se enquadra. Normalmente, nem todos eles estariam aqui naquele momento em particular. Eu não havia planejado isso; Não sabia o suficiente para fazer isso.

Estamos sempre atentos a esse governo providencial de circunstâncias para o nosso bem? Não. Pode ser que nem sequer estejamos conscientes disso.

Lewis resiste um pouco a essa ideia, achando “difícil conceber uma classe intermediária de eventos que não são nem milagrosas nem meramente ‘comuns'”. Ele abandona “a idaia de que existe qualquer classe especial de eventos (além dos milagres) que podem ser distinguidos como “especialmente providenciais”. Nisso, ele está simplesmente afirmando que “todos os eventos são igualmente providenciais”.[4]

O que me parece é: se a providência, em todos os aspectos, não é mais do que a soma total de tudo o que ocorre, então a vida pode ser quase toda concebida sem Deus, ou totalmente fatalista, ou sujeita à aleatoriedade do acaso. Se o povo de Deus não pode ver a mão de Deus no arranjo das circunstâncias de suas vidas para o bem, de uma maneira que não é produzida pela lei natural, a doutrina da providência acaba ficando desvalorizada. Na verdade, a Bíblia não suporta tal visão da vida.

Em vez disso, a Bíblia está repleta de relatos desse tipo de governo divino das circunstâncias e, portanto, representa um aspecto da providência que é de grande importância. Considere José, que no final pôde dizer a seus irmãos após as longas e amargas provações que ele suportou: “Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar muita gente com vida.“(Gn 50:20).

Não era providencial que o servo de Abraão, à sua chegada a Harã, fosse recebido no poço por Rebeca, aquela que se tornaria a esposa de Isaque (Gn 24:12-26)? O versículo 21 é a chave: ele “permaneceu em silêncio para saber se o Senhor tinha feito sua jornada próspera ou não”. Na verdade, o Senhor tinha feito isso, e seu providencial arranjo de coisas mostrou que esse era o caso. O próprio Abraão experimentou tal providência. Ele acreditava que Deus providenciaria o animal de sacrifício em Moriá (Gn 22:8), e quando ele provou sua fé em Deus na oferta de Isaque, “lá atrás dele havia um carneiro apanhado em um mato por seus chifres” (v 13). Como resultado, Abraão chamou o lugar Jeová-Jireh: “O Senhor – irá providenciar” – a prova, de fato.

A história da ascenção de Moisés para livrar Israel da escravidão começa com tal manifestação de providência. Quando Joqueebede colocou o bebê no cesto, quem o encontrou, senão a filha de Faraó (Deus sussurra em seu ouvido que ela precisava de um banho, como alguém que sugere com eloquência?), que ao vê-lo, o amou, criando-o e preparando-o – algo não intencionado por ela, é claro – para o papel que ele desempenharia (Êxodo 2:2-6). Coincidência ou acidente? Na verdade, não.

E certamente não havia nenhum acidente no fato de que Xerxes, na última noite antes de Hamã pedir permissão para enforcar Mordecai, não conseguia dormir e ordenou que os registros fossem trazidos e lidos para ele. Ele foi lembrado do serviço de Mordecai, e isso levou à libertação não apenas de Mordecai, mas dos judeus (Es 6:1) – evento sobre o qual Richard Sibbes escreveu: “Deus não produz poucas ocasiões para grandes propósitos”. [47] Esses exemplos poderiam ser multiplicado muitas vezes.

Algumas questões práticas

Existem várias questões “práticas” envolvidas na doutrina da providência. Vou discutir aquelas que parecem importantes para os meus propósitos.

Uma verdade importante segue da discussão anterior: só podemos ver a “mão da providência” após o fato. Aqueles que usam terminologia filosófica dirão que devemos ver a providência a posteriori – depois do evento, em outras palavras. Não conhecemos a priori – antes da história – a aparência da providência de Deus.

Talvez isso seja exagerado. O motivo é que se isso aplica especialmente à providência circunstancial, descrita acima. Nós sabemos como se dá a lei natural, pelo menos em alguma medida. Se o seu dentista injetar Novocaína em sua gengiva no lugar certo, então você não sentirá dor na obturação. No entanto, mesmo nosso conhecimento da lei natural se dá essencialmente após o fato. Aprendemos como funciona observando como funciona e, da regularidade de seus efeitos, discernimos uma maneira de declará-lo (“método empírico”, em outras palavras). E = MC2, Einstein disse, e assumimos que ele estava certo, mesmo que não entendamos isso – embora algumas questões começem a surgir, mostrando novamente que a ciência é o conhecimento “após o fato”. Deus não nos deu, na Bíblia, um livro didático de física pelo qual definimos a providência manifestada na lei natural. Nossa ciência deve descobrir isso.

De qualquer forma, me refiro aqui principalmente à providência circunstancial. Eu não sabia, antecipadamente, que todas as minhas filhas estariam aqui quando minha esposa morresse. Nada nas promessas de Deus de cuidar de Seu povo sinalizou que Ele providenciaria isso, ou pelo fato de que Benjamin Randall não estava ferido quando seu cavalo tropeçou “e precipitou-o no chão”. Porém quando ocorrem tais coisas, nós olhamos para trás e vemos como Deus exerceu Sua providência ao cuidar de nós.

No final, tudo o que podemos fazer com a providência é reunir os fatos e determinar como vemos Deus trabalhando neles. Na verdade, nem sempre somos astutos o suficiente para saber se um determinado evento foi organizado para nosso benefício, independentemente de ter sido ou não benéfico no momento. Talvez seja melhor dizer, à luz de Rm 8:28, que nem sempre sabemos como foi para nosso benefício. Eu nunca espero saber como a morte da minha esposa foi para o meu bem final, mas aceito que foi e me alegro na presença reconfortante das minhas filhas e na certeza de que Deus estava e está trabalhando.

Há uma cautela importante em tudo isso: é preciso evitar seletividade apressada em nossa identificação da mão da providência nos eventos de nossas vidas. É fácil pensar que, de alguma forma, Deus nos escolheu, ou alguma instituição querida para nós, no Seu arranjo de coisas que nos afetam. Como já observamos, a providência de Deus inclui tudo, e devemos tomar muito cuidado antes de concluir que Ele trabalhou em nosso favor, especialmente quando os eventos analisados envolvem coisas com amplitude histórica.

Berkouwer, ao discutir esta questão, cita um teólogo russo que acolheu Stalin como “o líder divinamente nomeado de forças armadas e culturais”. Ele também lembra que houve cristãos alemães que acolheram o surgimento de Hitler de forma semelhante, e então cita o alemão o teólogo Kittel insistiu que “a Igreja, sob o Espírito e a Palavra de Deus, não é tão fraca que não tem autoridade para falar se a decisão desses dias é de Deus ou de Satanás”. [48] Sim, mas deve-se ter muito cuidado na interpretação dos meios de providência, e se uma obra é de Deus ou de Satanás. A providência de Deus é sobre tudo. Berkouwer observa com razão: “A interpretação de um evento histórico como uma revelação especial da Providência facilmente se torna uma forma de auto-justificação piedosamente disfarçada”.

Berkouwer, novamente: “A seleção de eventos que são reveladores e a maneira de interpretá-los é basicamente deixada ao julgamento individual e subjetivo”. [50] Embora isso seja inevitável, isso indica que devemos ser cautelosos, usando o que Berkouwer chama de “um norma segundo a qual os eventos particulares são tanto selecionados para julgamento, quanto julgados “. [51] Essa norma não pode ser maior ou menor do que os princípios claros da Palavra escrita, discernida e aplicada na fé:” O evento fala apenas porque Deus fala primeiro “. [52]
Além disso, o que Deus falou e os “fatos” da história devem ser lidos na fé: “Sem fé, sem ouvir constantemente a Palavra explicativa, o homem não é capaz de distinguir basicamente entre o êxodo de Israel e os êxodos da Síria e da Palestina. … Nunca devemos reconhecer o dedo de Deus na história sem primeiro conhecê-Lo na plenitude de Sua revelação”. [53] Nessa luz, Berkouwer explica que “pode-se aceitar a prosperidade como o dom de Deus e a adversidade como a mão de Deus generosamente levando-o a adquirir uma maior fé “[54].

Dito isto, a discussão técnica não precisa diminuir nossa apreciação pela mão da providência nas circunstâncias de nossas vidas. Nossas mentes precisam ser sintonizadas para discernir essa mão e agradecer a Deus.

CONHECIMENTO PRÉVIO E PROVIDÊNCIA

Há alguns anos, quando o “teísmo aberto” neo-arminiano começou a se espalhar dentre os evangélicos, John Sanders construiu sua tese para negar a presciência exaustiva de Deus em um livro chamado “The God Who Risks [O Deus que arrisca]”. Curiosamente, o subtítulo foi A Theology of Providence [Uma Teologia da Providência] [55]. De fato, a presciência de Deus tem implicações importantes para a compreensão da providência.
Novamente, não irei me aprofundar no problema lógico que surge quando as pessoas veem a presciência como “ocasionar todas as coisas no futuro necessário”. Já me debrucei sobre esse assunto anteriormente. [56] Deve ser suficiente dizer, por enquanto, que a presciência de Deus não limita as escolhas futuras e livres. A chave para entender isso é perceber que a presciência apenas assume a certeza do futuro, não a sua necessidade. As livres escolhas estão relacionadas a eventos contingentes, eventos que podem ir de uma forma ou de outra. O fato de Deus saber o que uma pessoa escolherá no futuro não faz essa escolha necessária. Na verdade, Deus a conhecerá apenas se a pessoa a escolher.
No final das contas, como isso se relaciona com a providência e por que Sanders pensou que sua negação de presciência teria impacto na teologia tradicional da providência? Sempre foi assumido que, se Deus vê o futuro, ele pode exercer o que eu chamo de providência circunstancial e agir para cuidar de seus filhos que serão afetados por ela. Sanders, no entanto, compreende de outra maneira. Segundo ele, se Deus vê o futuro, então Ele mesmo não pode mudar nada. Por exemplo, se Deus vir que eu sofrerei um acidente de trânsito na rua amanhã, então Ele não pode alterar nenhuma circunstância para evitar o inevitável. Suas mãos estão amarradas por Seu conhecimento.
Quando dizemos algo assim, sabemos instintivamente que algo está errado. Na verdade, algo está muito errado com essa linha de pensamento. Por um lado, ela negligencia que o conhecimento depende dos fatos (futuros), não vice-versa. Por outro lado, ela ignora todas as contingências que poderiam ocorrer de uma forma ou de outra como resultado de escolhas humanas voluntárias. Deus sabe diferenciar eventualidades de necessidades. Ele sabe que eu vou ter um acidente de trânsito amanhã somente como resultado de muitas escolhas que serão feitas de agora em diante, incluindo as escolhas dos dois motoristas. Ele conhece “todos os mundos possíveis” (como os filósofos gostam de expressar isso), e isso significa que Ele sabe tudo o que acontecerá se qualquer uma das escolhas contingentes de todos os envolvidos é tal ou qual. Ele sabe o que acontecerá se eu tomar essa rua ou aquela, ou se eu sair cedo ou atrasado, ou se alguma das mil outras coisas entrarem em jogo. Saber que um motorista descuidado furará o semáforo e me atingirá, se todas as circunstâncias estiverem corretas, deixa-O livre para influenciar as mudanças nas circunstâncias para o meu benefício, se o seu plano para mim exige isso. Obviamente, isso significa que seu plano para mim pode funcionar melhor, no entanto, se eu realmente tiver esse acidente. Só então Ele saberá que o acidente é uma certeza, porque Ele determinou permitir isso em Seu governo circunstanciado das coisas.
O que me parece uma excelente ilustração de como isso funciona é encontrado em 1 Samuel 23. Davi está fugindo de Saul e, com seus guerreiros, foi a Queila para libertar essa cidade dos filisteus. Ele descobre que Saul sabe onde ele está e busca orientação do SENHOR, através do sacerdote (usando, aparentemente, o Urim e Tumim). Ele faz duas perguntas: Será que o povo de Queila o trairá e entrega-lo-á a Saul? E Saul realmente virá atrás dele? Para ambas as perguntas, o Senhor responde sim. Então, David sai da cidade e evita qualquer tipo de encontro (vv. 10-13). É evidente que o Senhor sabia exatamente o que aconteceria se David ficasse em Queila, e que, por Sua revelação, Ele permitiu que Davi evitasse essas duas eventualidades. (Eu hesito, mas sugeriria que esta é uma lição melhor sobre presciência do que qualquer tratamento filosófico-teológico do assunto que já tenha aparecido).

E esta é a razão pela qual a presciência de Deus é essencial para o seu providencial controle sobre as circunstâncias de nossas vidas. A maioria dos crentes compreende instintivamente que o governo providencial de Deus das circunstâncias pressupõe sua presciência de todos os eventos, e que Seu governo é o melhor para isso. Se alguém considera que a presciência impede Deus, o homem e as circunstâncias de interagir entre si dentro do tempo, é melhor que abandone essa ideia.

Para entender corretamente a Bíblia, é preciso aceitar que Deus – independentemente de Seus grandiosos atributos – interage com os seres humanos e suas circunstâncias em tempo real. Dois importantes eventos bíblicos são motivos claros para isso. Uma é a criação: Deus criou, no tempo, um mundo real que não existia antes.[57] Outra é a encarnação: a segunda pessoa da Trindade entrou no mundo no tempo e no espaço por meio do nascimento do Deus-homem. Deus, embora não limitado pelo tempo e espaço, pode operar no reino do tempo e do espaço que Ele criou e controla.

Além desses dois fatos mais importantes, a Bíblia está cheia de outras coisas que também ressaltam essa verdade. Considere, por exemplo, as tábuas de pedra que Moisés trouxe do Sinai. Elas estavam “escritos com o dedo de Deus” (Êxodo 31:18). Elas não foram gravadas por Deus na eternidade, independentemente de quando tomou a decisão. Deus agiu no tempo e no espaço para escrever em pedra os “Dez Mandamentos”.

1 Samuel 15 (como quase qualquer capítulo nos livros históricos) é outra boa ilustração. A linha do tempo é: (1) Javé instruiu Samuel a dizer a Saul que destruísse os amalequitas; (2) Saul e as pessoas pouparam Agague e seu gado; (3) Então, o Senhor disse a Samuel que estava arrependido de ter feito rei de Saul e Samuel chorou a noite toda; (4) Samuel encontrou-se com Saul e informou-o o que o Senhor havia dito naquela noite, e que o Senhor dividiu o reino de Saul naquele dia e deu-o a um homem melhor. Se uma leitura filosófica ou teológica sofisticada dessas contas resulta em confusão devido à presciência e às decisões do Senhor na eternidade, e faz com que os leitores se perguntem se Deus e os homens e as circunstâncias realmente estavam interagindo no tempo, então essa leitura enfraqueceu o ensino bíblico. Estes atos de Javé não foram realizados na eternidade, independentemente da atemporalidade de Deus. Deus falou a Samuel, anunciou o seu arrependimento por ter feito rei a Saul, e tirou o reino dele naquele momento. Deus agiu por conta da atitude errada de Saul. A menos que o teólogo possa ajudar a igreja a compreender conhecimento prévio nestes termos, ele presta um desserviço à comunidade ao confundi-la com a uma presciência estéril.

DEUS ATENDE ORAÇÕES?

Esta é uma questão importante sobre a providência. As nossas orações fazem alguma diferença em como Deus providencialmente maneja nossas circunstâncias? Podemos usar a ilustração acima para enquadrar isso. Vamos supor que Deus sabe que uma série de eventos ocorrerão, dependendo das escolhas de todos os envolvidos, o que levará a ter um naufrágio amanhã se não forem alterados. Suponha, então, que eu, ou outra pessoa, ore para que eu tenha uma viagem segura, ou mesmo mais geralmente para meu bem-estar. Deus pode atender a essa oração e intervir nas circunstâncias que levarão a escolhas diferentes e, assim, a evitar um naufrágio?

Sim ele pode. Ele certamente o fará? Não necessariamente. Nós saberemos o que Deus fez ao observarmos que acontece.

Lewis diz que nossas orações têm um efeito sobre as coisas, discutindo o “problema” que supostamente surge quando também afirmamos que Deus sabe com certeza, antecipadamente, todos os eventos da história. Ao invés de considerar respostas como “Providência Especial”, Lewis acredita que Deus, na eternidade, conheceu as nossas orações e organizou a lei natural de forma a incorporar a resposta. Consequentemente, “O que realmente depende da minha escolha. Meu ato voluntário contribui para a forma cósmica. Essa contribuição é feita na eternidade ou “antes de todos os mundos”; mas minha consciência de contribuir me alcança num ponto particular na série do tempo.”[58]

A explicação do calvinista é semelhante, como indica Spiegel. A diferença é que minha oração foi decretada por Deus antes de ser conhecida e, portanto, é uma “causa secundária para a realização de sua vontade”. Novamente, ele alega que os decretos de Deus incluem os meios e os fins. [59] Ele cita a observação bem conhecida de Tomás de Aquino que “nós oramos, não para que possamos mudar a disposição divina, mas para que possamos impetrar [pedir] o que Deus dispôs a cumprir com nossas orações” [60]

Essas discussões são desnecessariamente nubladas pela confusão que os humanos encontram ao discutir a liberdade humana e a presciência divina, como discutido acima, mas elas levam à conclusão de que nossas orações fazem, de fato, diferença no modo como Deus age. Deus pode conhecer e decidir as coisas na eternidade, mas Ele age no tempo. A conexão entre nossas orações e Seus atos é tão real como se Ele nunca as tivesse conhecido ou planejado. Eu acho útil, e acredito que é preciso, dizer que a interação entre nossas orações e o funcionamento ativo de Deus é exatamente o mesmo que seria se Ele não conhecesse o futuro com antecedência – exceto que, então, Ele seria verdadeiramente limitado e perderia o controle.

Deus pode agir em circunstâncias que mudam a mente das pessoas, pelo caminho, sem interferir com a liberdade. Posso planejar, por exemplo, trabalhar no meu jardim amanhã. Ele pode enviar chuva e eu mudarei meus planos, mas Ele não terá violado minha liberdade ao fazer isso. [61]

Toda afirmação na Bíblia sobre a oração, então, deixa claro que Deus leva em conta nossas orações. Nesse caso, é claro que as orações podem afetar o exercício de Providência de Deus. Como Helm observa: “Nada pode deixar de prejudicar o ensinamento das Escrituras e a convicção dos cristãos de que Deus provoca acontecimentos importantes porque as pessoas o pedem (Tg 1: 5)”. [62]

Tiago 5 é útil: “O A oração da fé salvará os doentes, e o Senhor o levantará”(v. 15), e “A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos”(v. 16). A oração pode não ser a única coisa que Deus considera ao agir, mas certamente faz a diferença no que Ele faz e não faz. Belew observa que “Deus age em, através e por aqueles cujos corações estão condicionados pela oração  à aquilo que, de outra forma, Ele não faria”, citando como exemplos bíblicos as orações dos israelitas na escravidão egípcia, que “Deus ouviu” e atuou (Êxodo 2 : 23-24); e a revelação de Deus para Daniel, que veio em resposta à oração, de modo que “Daniel e seus companheiros não possam perecer” (Daniel 2:18).

A oração às vezes faz a diferença no que Deus, de outra forma, faria providencialmente pela lei natural? Aparentemente, então. Tiago 5 afirma que Elias orou para que não houvesse chuva em Israel, e não choveu por três anos e meio; e então ele orou pela chuva, e a chuva veio (vv. 17, 19). Isso nos leva de volta ao milagre, é claro, onde Deus age de maneira diferente do curso normal da natureza. Para isso, também a cura no versículo 15 – se, de fato, for uma inversão instantânea do curso da doença. Nem toda a cura é uma inversão, de fato. As reversões milagrosas da lei natural, sempre possíveis no trabalho providencial de Deus, são relativamente poucas e distantes, e meu propósito nesse tratamento não inclui dar mais atenção à atividade milagrosa.

Algumas aplicações práticas

Nenhuma doutrina se destina unicamente à estimulação ou satisfação intelectual. Todas as expressões da palavra de Deus, incluindo aquelas que chamamos de “teológicas”, são destinadas a nossa fé e comportamento cristãos. Isso é verdade para a doutrina da providência, e eu fico preocupado pela percepção de que alguém que leia este tratado imediatamente se pergunte como isso se aplica às suas próprias experiências. [63] A esse respeito, quero primeiro fazer uma pergunta muito importante e prática: como a doutrina da Providência se aplica quando a vida é ruim e os cristãos sofrem?

As vidas de alguns cristãos são tragicamente e devastadoramente ruins – por conta do que parecem ser eventos aleatórios. Considere o caso de um crente fiel que, como resultado de nenhum descuido próprio, está ferido em um acidente, está paralisado do pescoço para baixo, posteriormente acaba divorciando-se de sua esposa e passa o resto de sua vida sujeito a abusos de seus cuidadores. Não é preciso imaginar as pior circunstâncias possíveis: muitos cristãos sofrem de uma forma ou de outra a maioria dos seus dias, sem que alguém aparentemente seja “responsável”.

Há casos em que o sofrimento pode vir como resultado dos erros que outros provocam, inteiramente imerecidos por parte daquele que sofre. Em outros casos, podemos sofrer como resultado de nossas próprias falhas ou irregularidades. É muito fácil para nós, sejam quais forem os motivos do sofrimento das pessoas, recitar Romanos 8:28 e proclamar que o cuidado providencial de Deus está sendo exercido em seu favor. Mas não devemos ser gentis. Não somos suficientemente informados sobre os modos ativos de nosso Deus para poder dizer exatamente como a Providência está em ação em suas vidas. Nem nós que observamos nem os que experimentam tais dificuldades podem sempre ver como a Providência de Deus foi exercida em seu favor. Embora acreditemos que, de maneiras que não podemos entender, Deus está trabalhando em todas as circunstâncias de suas vidas para cumprir o Seu bom propósito, devemos deixá-lo ao próprio Deus para mostrar como isso pode ser verdade, e ele pode muito bem, não revelar  nada até que a redenção seja final. Às vezes, temos que reconhecer que não há respostas para nossas perguntas. O sofrimento nem sempre “faz sentido”.

Sempre que o mal cometido, seja por nós mesmos ou por outros, causa sofrimento, podemos ter certeza de que Deus não desejou ou causou o erro. Como citei anteriormente, Ele não aprova nenhum pecado. Ele permite-o, é claro, por seus próprios e bons motivos, porém não revelados. O fato de que Ele incorpora uma transgressão humana em seu propósito, não nos dispensa da responsabilidade desse ato.

Além disso, a doutrina da Providência não significa que sempre, ou mesmo, geralmente, escaparemos das consequências de nossas ações ou das ações dos outros. As “leis” de Deus também funcionam em tais assuntos. Mesmo assim, nossa compreensão da Providência significa que, mesmo nessas consequências, Deus compromete-se graciosamente a trabalhar de tal maneira que o seu bom propósito para nossas vidas e para o Seu governo e glória sejam realizados.

Concluindo, escolhi três implicações importantes para enfatizar. Como Spiegel insiste, “uma doutrina de Providência deve ser avaliada de acordo com seu impacto moral”. [64]

Ao abraçar a abrangente Providência de Deus em todas as coisas que nos afetam, nossa fé se fortalece. Isso se manifestará em pelo menos dois modos intimamente relacionados: na submissão ao Seu controle providencial sobre todas as coisas, e em uma confiança estabelecida, até na coragem, diante de circunstâncias inesperadas ou indesejáveis em nossas vidas. Nós seres humanos, por natureza, queremos dirigir nossas próprias vidas. A apropriação da doutrina da Providência significa que, na fé, isto é, na confiança obediente e amorosa, colocamos a nossa vida nas Suas mãos e nos inclinamos para o Seu domínio. Como Robert Adams disse, fazemos isso “sem ter um plano do que ele vai fazer”, o que “implica uma perda de controle de nossas próprias vidas”. [65]
Se Deus tem controle e Ele trabalha tudo para o bem daqueles que são dele, como Rm 8:28 nos informa, e se confiarmos nele, não há outra alternativa além de se submeter sob Sua mão. Não uma submissão cega, mas a submissão confiante daqueles que são assegurados no amor e cuidado de Deus e de Seu governo nas áreas de suas vidas. João Calvino declarou com razão que “a ignorância sobre a Providência é o máximo de todas as misérias; A maior benção é o conhecimento sobre ela.”[66] Theodor Zahn também estava certo: “Fé é a segurança de que nenhum mal, grande ou pequeno, do menor desvio da vida cotidiana até a mais terrível calamidade, pode acontecer sem a vontade de Deus “. [67]
Isso não significa que somos passivos. Deus nos revelou os caminhos que Ele espera de nós. Dessa forma, devemos buscar, como nossa primeira prioridade, “o reino de Deus” (Mateus 6:33). Isso implica a busca de muitas coisas, incluindo (mas não limitado a) obedecer seus mandamentos, nosso próprio bem-estar espiritual, a conversão e edificação dos outros, o avanço do Evangelho, a edificação do corpo de Cristo, demostrando misericórdia aos necessitados, e a adoração sem obstáculos de Deus.
Nossa submissão não significa, em outras palavras, a aceitação das coisas como elas são. Mas isso significa que não resistiremos nem nos rebelaremos contra o providencial trabalho de Deus em nosso mundo e em nossas circunstâncias. JC Ryle, comentando sobre Lucas 13:33, disse primeiro que “devemos procurar possuir um espírito de confiança calmo e inabalável sobre as coisas que virão”. Então, ele acrescentou, de forma adequada, que “não devemos negligenciar o uso de meios, ou omitir todas as provisões prudentes para o futuro não visto. Descartá-los implica em fanatismo e não em fé. Ainda assim, quando fizermos tudo, devemos lembrar que, embora os deveres sejam nossos, os eventos são de Deus”. Ele continua dizendo que esse estado de espírito nos impedirá de estarmos ansiosos sobre as coisas e “aumentar imensamente a nossa paz “. [68]
Nada disso significa, como já observamos, que não cometamos erros que não precisássemos, ou que outros não cometam erros que nos afetam de maneiras que não precisaríamos, ou que Deus de fato quer que tudo ocorra do modo como acontece. Afinal, o mal no mundo – tanto o moral, quanto de outras formas – não é o plano original de Deus. O que significa é que vivemos a vida – tudo o que nos inclui na Providência de Deus – com confiança, e também a encaramos com fé.
ORAÇÃO
A oração é uma manifestação da fé. É pelo menos uma maneira de sinalizar nossa dependência de Deus. A oração é constatar a necessidade que se tem de Deus. Evidentemente, ela é mais do que isso; Ela é adoração, por exemplo. Mas no contexto da providência, a oração é especialmente uma expressão de nossos desejos de que Deus cuide de assuntos além do nosso controle e guie-nos nos que parecem estar sob nosso controle.
À luz da discussão acima, quanto ao fato de que a Providência de Deus dá margem para nossas orações, isso não precisa ser discutido de forma extensiva novamente. Entretanto, é importante para nós entendermos que o trabalho providencial de Deus nos assuntos dos homens e das coisas depende das nossas orações. A Bíblia constantemente nos encoraja a orar e a fazê-lo sem cessar.
Curiosamente, Spiegel incorpora na sua discussão sobre os benefícios morais da doutrina da Providência o direito do cristão de se queixar das circunstâncias. Mas essa queixa é feita apenas a Deus, pois é Ele quem controla todas as coisas, incluindo os erros cometidos contra nós, causados por outras pessoas. [69] Isso pode ser uma contrassenso com a doutrina em si, mas lembre-se que Davi e outros salmistas inspirados às vezes se queixavam com Deus, sem usar de difarces; veja, por exemplo, Salmo 44: 13-23. Afinal, tal oração de queixa serve para nos lembrar de que Deus tem controle, e é, por implicação, uma oração de que Deus mudará as coisas.
Não oramos para mudar a mente de Deus. Ao invés, oramos para buscar Suas ações providenciais em nome de nós mesmos e de outros que precisam que Ele aja em seu favor. Isso inclui necessidades físicas, embora estas sejam sempre menos importantes do que as necessidades espirituais. Mas é correto orar por todos os tipos de coisas, como a própria Bíblia dá evidências claras. Oramos para que Deus envie trabalhadores à sua colheita, para aqueles que estão fisicamente e espiritualmente doentes, para pessoas em autoridade civil, e assim por diante. E como sabemos que Ele responde orações, oramos com confiança – e, como Jesus no Getsêmani, em submissão à Sua vontade – que Ele nos ouve e atuará da melhor maneira para a realização de Seu propósito eterno para nós .
Orar em submissão à mão de Deus na Providência é uma forma de paciência. Spiegel nos relembra que a paciência cristã é realmente “paciência com Deus”. [70]
AÇÃO DE GRAÇAS
Thomas Fuller, quando escapou de ser alvejado por uma flecha, sugeriu a seguinte oração: “Não me deixe ser tão tolo a ponto de agradecer à Sorte Cega por um favor que o Olho da Providência me concedeu. Em vez disso, que a quase impossibilidade de minha escapatória faça com que a minha gratidão à sua bondade seja maior, a menos que, de outra forma, a minha ingratidão faça com que, com justiça, enquanto essa flecha tenha apenas acertado meu chapéu, a próxima perfure a minha cabeça. [71]
Spiegel discute a justificativa filosófica para a gratidão, concluindo (de acordo com Fred R. Berger) que é “uma resposta adequada a um benefício gratuito e intencionalmente concedido a uma pessoa para seu próprio bem”. [72] Certamente, as coisas boas que Deus providencialmente faz para nós cumprem os três critérios: ele age livremente e de propósito e para o nosso bem final. É um pecado deixar de agradecer a Deus por tal benevolência.
Esta pode ser a mais importante aplicação prática da doutrina da Providência. No sentido mais amplo, Providência significa que podemos agradecer ao Senhor em tudo, como a Bíblia exige. À luz da discussão acima, minha conclusão é a de que não agradecemos a Deus por tudo. Em vez disso, agradecemos a Ele em tudo, como a Bíblia diz que devemos. Não o agradeci diretamente pela morte de minha esposa, por exemplo, embora eu tenha-no agradecido por seu controle providencial, e por seu trabalho amoroso no ocorrido, juntamente com tudo mais, de acordo com o Seu eterno e benevolente propósito para todos que são afetados por essa perda.
Contudo, não precisamos tratar isso de forma geral, apenas. Também precisamos cultivar o hábito de agradecer a Deus por seu cuidado circunstancial de coisas específicas em nossas vidas. Isto significa, em primeiro lugar, que prestemos atenção ao trabalho de Sua mão. Muitas vezes, damos por certo as coisas aparentemente “acidentais” que nos afetam. Não há coisas meramente acidentais na vida do povo de Deus. Devemos nos condicionar a olhar para as coisas boas que nos acontecem que não organizamos, as coisas que poderiam ter sido de outra forma que foram para nosso benefício, as coisas que parecem antecipadamente “arranjadas”, mas não podemos explicar como.
E quando vemos essas coisas, devemos agradecer a Deus por elas como símbolos de Sua providência. Enquanto eu estava envolvido na escrita deste artigo, eu visitei minha irmã mais velha na Carolina do Sul, que está se recuperando de um acidente vascular cerebral. Um dia em uma outra viagem, enquanto o clima esfriava, notei que ar-condicionado do meu carro não estava aquecendo, e eu temi que fosse passar frio durante a longa viagem de volta a Nashville, no dia seguinte. Quando voltei ao quarto da minha irmã, “aconteceu” de um de seus filhos estar lá, e “aconteceu” de eu mencionar-lhe a minha situação. Ele me deu disse para procurar um amigo mecânico dele, e na manhã seguinte eu já estava lá, logo quando ele abriu a loja. Eu lhe contei o meu problema, e como eu já estava lá e pedi-lhe para dar uma olhada. Ele viu que o único problema era que eu estava com pouco gás no reservatório. Ele colocou quase um galão completo e não aceitou um centavo como pagamento. A providência de Deus funcionou em todos esses “acontecimentos”? Eu penso assim, e agradeci com entusiasmo ao mecânico e ao Senhor.
Para expressar mais uma vez esses três benefícios da doutrina da providência, apenas precisamos citar 1 Ts 5:16-18:
Regozijai-vos sempre.Orai sem cessar.Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco.[73]

TRADUZIDO POR ERLAN TOSTES

[1] I. D. Stewart, The History of the Freewill Baptists, for Half a Century, with an Introductory Chapter: Volume I. from the year 1780 to 1830 (Dover, NH: Freewill Baptist Printing Establishment, 1862), 144. Nunca houve um segundo volume.

[2] Albert C. Outler, Who Trusts in God: Musings on the Meaning of Providence (New York: Oxford University Press, 1968), 6.

[3] Ibid., 17.

[4] Louis Berkhof, Systematic Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1949), 165.

[5] Ibid., 165–66.

[6] Ibid., 168.

[7] G. C. Berkouwer, The Providence of God (Grand Rapids: Eerdmans, 1952), 180.

[8] Berkhof, 169–76.

[9] Berkouwer, 50.

[10] Ibid., 68.

[11] Robert E. Picirilli, Grace Faith Free Will: Contrasting Views of Salvation: Calvinism and Arminianism (Nashville: Randall House, 2002). Quando discutidas sob o título de providência, as questões são mais amplas do que aquelas discutidos em soteriologia, embora os princípios sejam os mesmos.

[12] Pelo menos, providência não aparece na Versão Autorizada; Não posso garantir, é claro, que ela não apareça em quaisquer versões inglesas contemporâneas.

[13] Paul Helm, The Providence of God, Contours of Christian Theology, ed. Gerald Bray (Downers Grove: IVP, 1993), 18.

[14] James S. Spiegel, The Benefits of Providence: A New Look at Divine Sovereignty (Wheaton: Crossway, 2005), 19.

[15] Thomas P. Flint, Divine Providence: The Molinist Account (Ithaca, NY: Cornell University Press, 1998), 12.

[16] Pascal P. Belew, The Philosophy of Providence (Butler, IN: The Higley Press, 1955), 11.

[17] Essas são frequentemente chamadas de circunlocuções ou perífrases.

[18] Martin Luther, Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan, 55 vols. (St. Louis: Concordia, 1957), 1:25.

[19] Berkouwer, 9, 10 (ênfase dele).

[20] Ibid., 32.

[21] Ibid., 92.

[22] William S. Plumer, Jehovah-Jireh: A Treatise on Providence (Harrisonburg, VA: Sprinkle Publications, 1993, reprint from 1865), 15.

[23] 23Berkhof, 173, 172, 175 (respectivamente).

[24] Ibid., 175.

[25] Isso também é verdade para a virtude, como meu amigo Paul V. Harrison me lembra: A virtude não é inerente ao ato de colocar dinheiro na cestinha de oferta, mas na intenção do doador.

[26] Berkouwer, 134-37, discute a distinção eu tirei (embora não exatamente como eu tirei-lo) como uma distinção entre a forma (a intenção pecaminosa) e matéria (atividade física), e rejeita-o, suplicando (com Calvin) ” não há necessidade de uma síntese perspicuous “(137) e assim por recorrer ao mistério. E, no entanto, ele afirma que “a atividade divina … é sempre sábio e bom” (137), que tem de dizer que Deus nunca participa em pecado, como a palavra simultaneidade sugere inevitavelmente. Berkouwer, 137-141, igualmente resiste ao resort usual (mesmo entre os teólogos reformados) à noção de autorização, a fim de absolver Deus de culpa. Mesmo assim, ele observa apropriadamente: “Quando a permissão é realmente usado para indicar o modo de decisão divina, pela qual Ele concede quarto dentro de sua sentença de liberdade humana e da responsabilidade, então a linha de pensamento bíblico não foi totalmente abandonada” (140) . Precisamente: em tal pensamento, a linha bíblica não foi abandonada em tudo! Para um melhor tratamento de permissão, consulte Helm, 171-73.

[27] Alvin Plantinga, “Materialism and Christian Belief,” in Persons: Human and Divine, ed. Peter van Inwagen and Dean Zimmerman (Oxford: Clarendon, 2007), 132. Flint, como Plantinga, mantém a opinião molinista da providência, que depende muito da doutrina do conhecimento médio de Deus (que não será discutido aqui); A abordagem de Flint de concordância, 87-94, é estimulante, mas altamente filosófica.

[28] Charles Hodge, Systematic Theology (New York: Charles Scribner’s Sons, 1884), 604. Paul Helm, 171– 82, parece ignorar a doutrina da concorrência e dar mais credibilidade à permissão divina, mas sua abordagem me é um pouco inseguro.

[29] Thomas C. Oden, The Living God: Systematic Theology (Peabody, MA: Hendrickson, 1998), 1:283.

[30] Berkouwer, 141.

[31] Uma teoria comum é a de que Deus sabia que um bem maior resultaria em um mundo onde o mal era possível que em um onde não era. Embora isso possa ser verdade, é especulação humana e não a revelação bíblica.

[32] Para uma discussão completa sobre as implicações de 1 Cor 10:13, ver Paul A. Himes: “When a Christian Sins: 1 Corinthians 10:13 and the Power of Contrary Choice in Relation to the Compatibilist-Libertarian Debate,” JETS 54.2 (June 2011): 329–44; Steven B. Cowan, “Does 1 Corinthians 10:13 Imply Libertarian Freedom? A Reply to Paul A. Himes,” JETS 55.4 (December 2012): 793–800; Paul A. Himes, “First Corinthians 10:13: A Rejoinder to Steven Cowan,” JETS 55.4 (December 2012): 801–06.

[33] Spiegel, 19, 15.

[34] Ibid., 27. Ele então prossegue, 27-29, para fornecer argumentos eficazes contra a visão arminiana da simples (mas exaustiva) presciência. Helm, 39ff, prefere distinguir um “nenhum risco” vista da providência (comparável à vista “alta” do Spiegel) a partir de um “risco”. Enquanto ele não anuir, aparentemente, a vista “nenhum risco” poderia incluir o Arminianismo clássico, e a visão “de risco” que incluem, principalmente, aqueles que negam a presciência exaustiva de Deus. É comum que os calvinistas de oposição que, se escolhas de uma pessoa são verdadeiramente “livre” (indeterminista), Deus não pode, possivelmente, conhecê-los; veja Helm, 55f. A visão arminiana é precisamente que Deus prevê opções mesmo indeterministas intuitivamente. Para uma útil defesa (principalmente filosófica) da visão tradicional da providência e de uma conta libertário da liberdade, consulte Flint, 11-34.

[35] Spiegel, 120.

[36] Berkouwer, 196.

[37] Helm, 82–83.

[38] C. S. Lewis, Miracles: A Preliminary Study (New York: Macmillan, 1947), 208. Meus agradecimentos ao Dr. Darrell Holley por ter me mostrado essa fonte.

[39] Berkouwer, 87.

[40] Ibid., 181.

[41] William Gurnall, The Christian in Complete Armour: A Treatise of the Saints’ War against the Devil, with biographical introduction by J. C. Ryle, two vols. in one; first pub. in three vols. between 1662 and 1665 (Edinburgh: Banner of Truth, 1964), 1:96.

[42] John of Damascus, Exposition of the Orthodox Faith, in Nicene and Post-Nicene Fathers, Second Series, (Peabody, MA: Hendrickson, 1994), 9:41.

[43] Gurnall, 2:453.

[44] Helm, 18–19.

[45] Ibid., 95.

[46] Lewis, 208 (ênfase do autor).

[47] Richard Sibbes, Works of Richard Sibbes, reprint of 1862–64 edition, ed. Alexander B. Grosart, 7 vols. (Edinburgh: Banner of Truth, 2001), 1:206–07.

[48] Berkouwer, 163–64.

[49] Ibid., 166.

[50] Ibid., 169.

[51] Ibid., 170.

[52] Ibid., 171.

[53] Ibid., 177.

[54] Ibid., 179.

[55] John Sanders, The God Who Risks: A Theology of Providence (Downers Grove: IVP, 1998).

[56] Robert E. Picirilli, “An Arminian Response to John Sanders’s The God Who Risks: A Theology of Providence,” in JETS 44.3 (September 2001): 467–91.

[57] This is usually called creation ex nihilo, creation from nothing.

[58] Lewis, 214.

[59] Spiegel, 52.

[60] Ibid., 52n7.

[61] Esta observação envolve o que alguns filósofos-teólogos chamam de conhecimento médio. Não estou convencido de que o conceito acrescenta muito para a discussão e não tenho vontade de persegui-lo aqui. Para uma apresentação completa (mas altamente filosófica) do conhecimento médio e providência, consulte Flint, especialmente 35-71.

[62] Helm, 153.

[63] Agradeço a uma amiga especial, a senhora Norma Trout, por me lembrar disso.

[64] Spiegel, 213. His final chapter, “Moral and Devotional Applications,” forneceu alguns dos estímulos para a minha seção final.

[65] Robert Adams, The Virtue of Faith and Other Essays in Philosophical Theology (Oxford: Oxford University Press, 1987), 19–20, cited by Spiegel, 216.

[66] John Calvin, Institutes of the Christian Religion, ed. John T. McNeill, trans. Ford Lewis Battles, 2 vols.; vols. 20, 21 of The Library of Christian Classics (Philadelphia: Westminster, 1960), 1.17.11.

[67] Theodor Zahn, Bread and Salt from the Word of God in Sixteen Sermons, trans. C. S. Burn e A. E. Burn (Edinburgh: T&T Clark, 1905), 276.

[68] J. C. Ryle, Ryle’s Expository Thoughts on the Gospels, 4 vols. (Grand Rapids: Baker, 1977), 2:138–39.

[69] Spiegel, 220–23.

[70] Ibid., 219 (itálico original).

[71] Thomas Fuller, Good Thoughts in Bad Times and Other Papers (Boston: Ticknor and Fields, 1863), 5.

[72] Spiegel, 223–24, citing Fred R. Berger, “Gratitude,” Ethics 85 (1975): 298–309.

[73] Sou grato a Paul V. Harrison por fornecer-me um número de citações pungentes sobre providência, incluindo os citados neste trabalho de Calvino, Cowper, João de Damasco, Fuller, Gurnall, Lutero, Oden, Ryle, Sibbes e Zahn.

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